VÍDEO :: Felippe Segall _ artista visual | Exposição individual, Projeto Fidalga, Vila Madalena

O Vitro acompanhou a conversa do artista Felippe Segall com Mario Gioia. Segall contou um pouco sobre seu processo criativo, como foi pensar nessa exposição para a sala do Projeto Fidalga. Exposição e conversa deixaram Mario Gioia super inspirado:

 

À americana (ou Estilhaços de um processo criativo)

Here I Know I Exist, exposição individual do paulistano Felippe Segall depois de um longo hiato, amplia o escopo de investigações poéticas em sua produção e, ao mesmo tempo, sedimenta algumas questões presentes desde o início de sua obra.

Um dado evidente é o caráter de experimentação e de permeabilidade do conjunto de trabalhos apresentados. É como se o artista abrigasse um caixote com numerosos novelos de lã, todos de cores diferentes, e deixasse o público escolher um dos fios para compor o que desejasse. Esse dado laboratorial/aberto fica claro na instalação mais ao fundo do espaço expositivo do Ateliê Fidalga, que passará por transformações até o encerramento da mostra.

Uma das características mais marcantes de Here I Know I Exist é o seu lado cinematográfico, mesmo que não haja filmes nem vídeos. Graduado em cinema em Nova York, Segall transitou pelo videoclipe antes de chegar às artes visuais, desenvolvendo alguns vídeos nesses últimos anos. Mas não é o cinema mainstream que interessa ao artista. Em seu mosaico de cenas apropriadas ou retrabalhadas, Segall traz à tona o que podemos chamar de narrativas laterais, que, de variados modos, também dialogam com outras linguagens, como o fotográfico e a pintura. Seriados que já foram pulverizados da história da TV, momentos nada dramáticos em filmes mais conhecidos _ o melhor exemplo nesse sentido é o frame do Rambo original, dirigido por Ted Kotcheff e datado de 1982, em escala generosa _ e stills cuja origem é pouco detectável povoam o cubo branco.

Contudo, seria pouco aproveitável todo esse arsenal cinematográfico se não houvessem fecundas relações com outros conteúdos e abordagens. O que tanto miram esses homens, numa presença física evanescente, quase ausente? E por que tantas figuras só vistas de costas? Nesse caminho, é relevante notar a relação do cinema com a fotografia e com a história da arte. Uma das imagens-emblema de Here I Know I Exist é um visitante mais velho, fitando uma tela de Gerhard Richter dentro do Centro Pompidou, em Paris, capturado via telefone celular. Outros dois registros, em papel simples, também foram feitos no mesmo recorte e têm elos com trabalhos anteriores do artista alemão (que discute o estatuto da imagem esgarçando limites tanto da pintura como da fotografia). E fotografias em preto e branco com construções mais formais podem remeter à modernidade da história nacional da fotografia (pensemos em Farkas, Lorca, Geraldo de Barros etc) mas também coadunam com produtos televisivos de sci-fi algo malfeitos _ lembremos de JaspionUltramanGodzilla,  O Homem de Seis Milhões de Dólares e muitos outros.

Outro dado comentável é que a imagética norte-americana, via toda espécie de registros que se pode imaginar, da publicidade aos produtos que chegam aos nossos supermercados, é profundamente fincada no olhar do artista, que reinventa toda essa influência e espalha pelo espaço expositivo peças multifacetadas. Seria também uma América mais vestigial, de imagens desfeitas e pouco fixas, presente no trabalho fotográfico de William Eggleston, Stephen Shore, Joel Meyerowitz. Aproveitando a obra de Eggleston, via autoestradas, meninas ruivas e sapatos a descansar, também é possível ligar o olhar de Segall à direção de fotografia de Elefante (2003), notável trabalho de Harris Savides calcado declaradamente nas imagens de Eggleston. O filme de Gus van Sant exibe outro dado presente em Here I Know I Exist, que é o perigo a espreitar. No filme, explode, sem imagens sangrentas, mas na mostra fica pairando, quase como à deriva, porém numa perigosa iminência. É também o panorama norte-americano do David Lynch mais ousado, do vídeo e do álbum Crazy Clown Time (2011), e também o de Veludo Azul (1986),Twin Peaks (1990-91) e Império dos Sonhos (2006). Uma América de cheerleaders decadentes, com namorados agressivos, de assassinatos no Maine, de bebedeiras em bares nada recomendáveis, tudo isso captado em baixa definição, sobreposições, focos tremidos, como que a desafiar o público: ‘Você pode confiar nessa imagem?’ ‘Qual é a verdade dela?’. Um cenário que caberia também em qualquer romance de Cormac McCarthy ou em um conto de Anne Proulx, por exemplo.

Segall, de certa forma, quer leituras menos estanques e mais movediças e, nesse ponto, a presença do tridimensional é sentida. Suas torres se elevam, mas são diminutas e feitas de uma estabilidade precária advinda do magnetismo dos ímãs que as constituem. Rimam com os skylines de SP, cuja característica certa é apenas o acúmulo de poluentes e edificações. Torres tão efêmeras como a glória em xeque dos troféus exibidos numa mesa de ateliê, cujo marrom parece ofuscar quaisquer momentos de triunfo.

Segall fala em “âncoras” dentro de Here I Know I Exist, mas é bastante claro que a solidez de tais instrumentos é colocada em dúvida. O fracasso e a falta perpassam todo o conjunto _ até na instalação mutante, cujo elemento fulcral é uma luz tíbia _, do personagem perdido em cena granulada de Rambo ao desfile de troféus inúteis, dos fios de cobre na janela algo sem função aos escritos fragmentados e desconexos. Uma arqueologia pessoal mesclada a narrativas ficcionais a serviço de uma História mínima, que justamente se torna essencial por sua fragilidade.

Mario Gioia, junho de 2014