Bruno Moreschi _ artista visual | ateliê coletivo, Consolação, SP

Nossas visitas aos ateliers sempre começam com o café. O papo vai fluindo, vamos andando pela casa até pararmos no atelier do artista visitado. A casa em Higienópolis onde trabalha Bruno Moreschi não fugiu dessa premissa. A casa abriga diversos profissionais criativos.  Achei muito curioso a parede da sala de estar. Ali estão escritos os nomes dos ocupantes da casa e de alguns personagens. O que mais me chamou atenção foi o do Pé Grande e do Mestre Yoda. Todas as forças estavam ali, pensei.

Sentamos para conversar com Bruno em sua sala. Já tinha nos antecipado durante o papo do café que escrevia para a extinta revista Bravo sobre artes e que cursou ambas as faculdades, artes plásticas e jornalismo.  Começamos o papo, ele nos contando como chegou onde está através de seu trabalho de mestrado. Sua primeira obra foi o trabalho de mestrado, o impressionante Art Book. O Art Book é uma paródia ao famoso catalogo Art Now, um catálogo dos artistas expoentes da atualidade. Porém no Art Book os artistas são fictícios, Bruno os inventou e criou suas obras. Durante um ano ele fez trezentas e onze obras. Praticamente uma por dia.  Chegou a fazer uma pintura a óleo e uma instalação no mesmo dia. Fez uma pesquisa extensa sobre os clichés do mundo das artes, os padrões que eram seguidos, o linguajar usado. O não assinar suas próprias obras, o usar de nomes de pessoas que não existem, fez com que o ego do Bruno como artista sumisse. Como podemos imaginar, a obra muitas vezes acaba sendo uma extensão do próprio artista, quase uma autobiografia.  Por isso o desprendimento do artista com sua obra é algo bastante profundo e delicado. Para poder criar tantos outros artistas com obras tão diferentes, Bruno foi obrigado a se desprender da autoria do trabalho, o que também proporcionou uma liberdade criativa enorme.

Depois de nos explicar o Art Book começamos a falar sobre questões de autoria. Bruno dividiu um de seus diversos questionamentos de que o trabalho é o resultado de tudo aquilo que vivemos, que nada é criado do zero. Afinal somos todos frutos do nosso ambiente.  E por isso a noção de que o trabalho é criado pelo artista é equivocada. O trabalho é a narrativa montada pelo artista daquilo que todos nós vivemos, isso que torna a obra particular mas também coletiva. Foram impressas dezenas de cópias do Art Book que Bruno enviou para bibliotecas mundo a fora. Diz que essa é sua forma de contaminar o mundo. Não explicou que os artistas do livro não existem e que o livro é em si a obra. O trabalho continua e vai muito além da impressão. Bruno vai testando o limite do que é real e até onde podemos acreditar na história da arte.

Esse pensamento nos levou para outras discussões presentes no trabalho do Bruno. A discussão da legitimidade de uma obra, do museu como um espaço sagrado e a obra como celebração do divino e inquestionável, a forma com que a história da arte é ensinada através de representações fotográficas da obra e não da obra em si. A conversa foi longe.

Por fim nos explica o trabalho que esta na parede, diversas imagens, uma ao lado da outra, relacionadas por temas e cores. Trabalho que ele expõe no Paço das Artes a partir de quinta-feira dia 31 de julho.

Texto _ Priscilla Nasrallah
Fotos _ Leka Mendes