Marcelo Moscheta _ artista visual _ateliê coletivo |Campinas

Chegamos a Campinas atrasadas para a visita ao atelier de Marcelo Moscheta. Estava um dia seco demais e tínhamos parado na estrada para almoçar. Fomos recebidas com um sorriso pelo artista na porta de seu atelier. A primeira impressão ao entrar na casa foi de como aquele atelier era organizado. Para começarmos nossa visita fomos convidadas a tomar um café. A organização de todo o atelier era admirável. Caixas e obras embaladas e rotuladas, tudo colocado em seu devido lugar, catalogado.  O espirito cientifico do artista transparece em seu local de trabalho. Após darmos uma volta completa na casa de diversos cômodos, sentamos na sala de Moscheta.

Na parede estava uma placa de madeira com diversos tipos de minerais pregados, todos dentro de um saco plástico com seus nomes em caneta as indentificando. Como se fosse uma coleção de pedras de um geólogo que as trouxe de vários lugares do mundo para sentir que o mundo ainda esta em seu alcance.

Moscheta nos conta que seu pai é botânico e que cresceu aprendendo essa ciência. Em homenagem ao pai, seu primeiro trabalho foi colecionar mariposas. A homenagem e influência de sua família continuou em seu trabalho de mestrado, onde, para conhecer melhor suas origens, recriou o trajeto percorrido pelo seu avô ao imigrar da Itália para o Brasil.  Revivendo uma história que não era dele o artista se reconheceu e assim terminou este trabalho.

Em residência na Bretanha, França, o artista começou a desenvolver sua relação com o espaço, com a paisagem. Ali passa o Paralelo 48N, um parelelo no 48o graus a norte do plano equatorial terrestre.  Então para começar o projeto decidiu que iria se deslocar somente dentro desta latitude e criar algo através da experiência de estar e se locomover em um espaço delimitado. Assim foi viajar ao longo deste percurso. No caminho comprava postais, criava novas paisagens e assim começou a pesquisa que permeia seu trabalho até hoje, de analisar como ele mesmo se localiza, como se quisesse validar a experiência através de dados exatos.  Essa foi uma das primeiras de muitas viagens exploratórias. Moscheta procura sempre lugares remotos para investigar. Lugares onde o homem se sente a deriva, pequeno. Viajou do deserto do Atacama ao Polo Norte. Através desse espirito bandeirante o artista busca entender sua posição no espaço. Nos explica que sua relação com a paisagem é a forma de se reconhecer no mundo. Entende a paisagem como a linha do horizonte e ele como a linha vertical. Nesse cruzamento ele tem a medida do que ele representa dentro do mundo, seu tamanho. Como se números e a geografia validassem o trabalho e a própria existência.  Apesar do conceito romântico do sublime vir a tona constantemente, sua forma de catalogação de experiências nos faz pensar nos primeiros exploradores, e eterna ânsia do descobrimento do novo. Mesmo sabendo que tudo já foi descoberto, que todos os lugares do mundo já foram mapeados, através de seu trabalho Moscheta procura imortalizar sua experiência de desbravador, ter o gostinho de Alexander Von Humboldt, o geografo naturalista e explorador que viajou extensamente pelo nosso continente. Cuja biografia virou o atual fascínio do artista.  Essa vontade de conhecer o novo, de explorar, de entender o mundo para se entender esta presente em diversos trabalhos das mais diferentes formas. E percebemos que a essência do homem não muda, não importa o quão longe ele vá.

Texto: Priscila Nasrallah
Fotos: Leka Mendes