Carolina Paz _ artista visual em residência | Nars Foundation _ Brooklyn, NY

No quarto andar de um galpão em Sunset Park (Brooklyn) estão os ateliers do Nars Foundation. Carolina me recebe na porta, andamos pelo espaço expositivo da residência até chegar a sala ocupada por ela. A organização do atelier de Carolina não me surpreende. O Vitrô já visitou o atelier de Carolina em São Paulo.(veja aqui) A leveza do ambiente, a cor branca permeando tudo deixou a lembrança de um espaço muito bem cuidado. Seu atelier no Nars Foundation deixou a mesma impressão. Lá estavam trabalhos realizados durante os três meses que passou em Nova York. Todos pendurados de uma forma aparentemente randômica, porém ao segundo olhar nos mostra uma sequência cuidadosamente feita pela artista. Latinhas antigas de vários tamanhos e origens espalhadas pela mesa central viraram canvas para suas pinturas recentes. Diversas destas pequenas pinturas estão penduradas em grupos nas paredes. Algumas pintadas somente com uma cor, outras com imagens que variam de bichos a objetos. O que chama mais atenção são os detalhes destas pequenas obras que fazem o espectador se aproximar para observá-las. Pequenos objetos que facilmente seriam itens colecionáveis, que despertam um sentimento infantil de querer levar consigo o objeto adorado. O dourado presente em alguns destes grupos invoca algo sagrado nestas pequenas latas que deram espaço às pinturas. O espaçamento entre os grupos e entre as pinturas em si criam um ritmo para observação do espectador.

Ao fazer trabalhos tão pequenos onde para observar os detalhes, ou ao menos para ver qual é o assunto neles pintados, temos que nos aproximar bastante das obras. Fazer com que o espectador chegue perto do trabalho para o reconhecer sugere que esse possa ser o meio pelo qual a artista se aproxime do mundo. O convite da aproximação é feito ao fazer obras que requerem que se caminhe para mais perto, que se olhe com maior atenção, oferecendo uma descoberta a quem o faz. A aproximação traz à tona detalhes de desenho e textura que tornam o objeto ainda mais desejável.

O silêncio e a calma são características que já havia observado em seu espaço de trabalho em São Paulo. Carolina trouxe consigo o espírito budista e a influência minimalista que permeiam seu espaço de criação. Apesar de muitos de seus trabalhos apresentarem figuras, estas se tornam secundárias à ação que ela realiza. Retrata assuntos do cotidiano de forma que estes se tornam especiais. Pintar uma xícara de café flutuando em um espaço dourado nos remete a ideia do religioso. Assim transformando um objeto banal em algo quase imaculado.

A questão do feminino no trabalho de Carolina é algo que se faz bastante presente pra mim. Traz à tona minha atual discussão sobre o feminino e masculino como característica e não como gênero. Aqui percebo o feminino através da delicadeza que invoca, da precisão de como é representado, da riqueza de detalhes a serem descobertos. O feminino muito além do feminismo. O que talvez fora perdido ao longo da trajetória feminista, a inteligência perspicaz e atenta, a observação e paciência que trazem sua força. Indo além do masculino como bruto e do feminino como delicado, a força presente na característica feminina é a habilidade da conquista de aproximar o espectador, de o seduzir para dentro de seu mundo. Assim, nos envolvendo em sua forma de enxergar o mundo, despertando esse desejo de algo quase sagrado é minha leitura do feminino. Um assunto que ainda devo explorar com entusiasmo, e que levanto em discussões muito prazerosas com Carolina.

Texto: Priscilla Nasrallah
Fotos: Priscilla Nasrallah e Fernanda Carvalho

* See English version below the post.

Carolina Paz at Nars Foundation NYC

 

The fourth floor of a Red Hook, Brooklyn warehouse is the home to the Nars Foundation studios. Carolina welcomes me at the door and we walk past the residency’s exhibition area all the way to her studio. I am not surprised by how organized Carolina’s studio is, after all, Vitrô has visited her studio in São Paulo. The lightness of the environment and the ubiquitous presence of the color white marked the thought a very well-taken care of space, as is the case of her studio at the Nars Foundation. Everything she had worked on during the three months of the New York residency were at the studio, apparently hung up on the walls at random. However, on a second glance, it was clear that all the works were carefully sequenced by the artist. Paint tins on the main table became the canvas for her most recent paintings. Many of such small paintings are grouped together on the walls, some in a single color, and others with images ranging from animals to objects. The details of the small works actually draw the most attention, and the spectator must come closer to truly see them. Small objects that could easily become collectibles, which trigger a childlike feeling of wanting to take over the object of adoration. The use of golden pain in certain sets invokes some sort of relationship with the divine in these small tins that gave room to paintings. The space between the sets and paintings alone creates a rhythm to be observed by the spectator.

By producing such small works, it is necessary to come closer to the pieces in order to observe the details or at least to see the depicted objects. Dragging the observer into the work to ensure its recognition suggests this is how the artist herself comes closer to the world. This invite to closeness, to approximation is made in works that require one to come closer, to pay more attention – and which offer a discovery to those that do so. This closer approach brings forth details of both the drawing and texture that render the object even more desirable. 

Silence and peace are the characteristics I had already observed at her studio in São Paulo, and Carolina has brought her Buddhist spirit and minimalist influence that permeate her creative space to New York. Though many of her works include images, such images come second to her action. Carolina portrays portions of everyday life in a very special way. Painting a coffee mug amidst a golden background results in a connection with the concept of religion, thereby transforming a common object into something that is almost immaculate. 

I strongly relate to the presence of the feminine in Carolina’s work, for it brings up my current debate on female and male as a characteristic, and not as a gender. Carolina’s work makes me perceive the feminine how delicate everything is, in the accuracy of every representation, in the many details – feminine that is far beyond feminism. The feminine that perhaps has been lost in the feminist trajectory, the keen and careful intelligence, the observation and patience from which strength arises. Taking a leap from the notion of masculine as crude/brute and feminine as delicate, the strength present in the feminine characteristic is the ability to conquer by having the observer come closer, by alluring the observer into her world. In so doing, Carolina involves us in her way of seeing the world, awakening this desire for that which is almost sacred – this is my understanding of feminine, an issue I am eager to further understand, and which results in pleasurable debates with artist Carolina Paz.

Unfortunately, this was one of her last days in New York and we had to say our goodbyes – before leaving, she introduced me to two other residents, which landed me another visit to the Nars Foundation.