Carlos Pileggi _ artista visual em residência | Nars Foundation, Brooklyn, NY

A segunda visita do Vitrô ao Nars Foundation foi com o casal residente Sandra Lapage e Carlos Pileggi. Dois artistas com uma trajetória muito interessante. Trabalhando em ateliers vizinhos, estão a um passo, um do atelier do outro. Ambos participaram das entrevistas mutuamente. Sandra falava do trabalho de Carlos assim como Carlos falava do trabalho da Sandra.

Começamos a entrevista no estúdio de Carlos. Entrar no seu espaço de trabalho é como mergulhar no mundo dos zines. A palavra fanzine é uma abreviação de fanatic magazine, uma aglutinação da última sílaba de magazine com a sílaba inicial de fanatic. A descrição dessa publicação independente me parece muito alinhada com o trabalho de Carlos. Seu atelier esta repleto de desenhos, gravuras e monotipias na parede. Enquanto conversávamos folhamos diversas de suas publicações. Estava diante de uma fanático, um fã do desenho e da reprodução. Um observador assíduo do cotidiano. Tomando nota do que acontece quando nada acontece através do desenho, explica que se permite contaminar por tudo que acontece à sua volta. Ali estávam pilhas de seus cadernos de desenho. Inclusive quando fomos ao atelier de Sandra, Carlos nos acompanhou com uma caderno na mão e desenhava continuamente. Arquivando suas observações e sempre as revisitando.

A trajetória de Carlos começou quando ainda cursava a faculdade de geologia. Adorava a poética da geologia. Como ele mesmo se descreve é um assíduo colecionador e apaixonado por arquivos. Na faculdade adorava Xerox. Fotocopiava tudo. Ainda na faculdade começou a fazer pequenas publicações e as distribuir. Eventualmente, deixou a geologia para cursar design, porém seu espírito de artista não gosta de receber briefings. Junto com sua esposa Sandra fizeram um mestrado em poéticas visuais na Maine College of Art. Durante o mestrado começou a testar os limites da zine. Para que o espectador pudesse realmente mergulhar em seu universo, o trabalho final de mestrado de Carlos foi criar um ambiente para que o visitante se sentisse parte da publicação. Ali podiam montar suas prórpias zines, levar consigo os desenhos expostos, criar junto com o artista.

O trabalho de Carlos enfatiza o valor da prática em si, se distanciando do valor do material. Atráves do formato zine seu trabalho se desprende de limites. Aqui o artista pode misturar processos, usando xerox e gravura. O desenho em água tinta em papel algodão tem o mesmo valor de uma fotocópia. Não existem diretrizes para seu trabalho. O trabalho acontece ao folhar as publicações, ao chegar perto, sentir o cheiro de gravura em um papel que parece um simples xerox. Enquanto Carlos falava, eu descobria um dos fanzines. Era como abrir uma caixa de surpresas. A cada dobra um desenho novo, um texto diferente. O trabalho se expande dependendo da curiosidade de quem o vê.

Os desenhos expostos no atelier fazem parte do projeto que está desenvolvendo em residência. As cores vermelha, preto e branca parecem dominar a paleta. Este trabalho que hoje chama de Amor Apparatuscomeçou com o título em alemão Die Liebesmuhen Lind Pein. Em português quer dizer: trabalho e a angústia do amor. Neste projeto Carlos procura fazer o inverso do que fez em seu mestrado. Ao invés de saturar as pessoas com material visual e informação, quer se aprofundar em uma série. Procurar traduzir o projeto todo em poucos desenhos ao contrario de diluir o tema em milhares destes, fazendo com que ele se torne uma nuvem, em suas próprias palavras.

A cada volta que dava pelo estúdio descobria um novo detalhe. Foi uma verdadeira imersão neste universo que apesar do formato de zine, tem o desenho como objeto principal.

Texto: Priscilla Nasrallah
Fotos: Priscilla Nasrallah e Fernanda Carvalho