Sandra Lapage _ artista visual em residência | Nars Foundation _ Brooklyn, NY

Ao cruzar a “fronteira” (uma passagem, sem porta, dividida por uma escada) entre o atelier de Carlos para entrar no de Sandra somos imediatamente engolidos por um mundo inconsciente. Um ambiente que provavelmente já visitamos em sonho. Ao andar no labirinto de formas criado por Sandra somos envoltos por papéis, figuras humanas, gazes, madeira talhada, e outros diversos materiais que não reconheço de imediato. Paro na entrada com um certo receio de pisar nos materiais aparentemente frágeis que cobrem o ambiente do chão ao teto. Tentando dar passos pequenos enquanto Sandra convida “pode entrar, pode entrar”. A experiência começa.

O trabalho de Sandra é uma descoberta da sua multi-culturalidade. De pertencer à duas nações, aprender uma língua em casa enquanto era alfabetizada em outra. Nasceu no Brasil, mas passou a infância entre Bélgica e Espanha, voltando já adolescente ao Brasil.

Ao convidar o espectador a entrar no seu mundo, fazer com que tenhamos que andar pelas produções, se esquivando para não bater em nada traz a sensação de estar em um labirinto. O caminho já traçado por ela, porém sem direção apontada. Parece que esta é a forma de Sandra convidar o espectador a extrapolar as fronteiras entre obra e público. Como ela mesmo se sente, uma pessoa sem raízes, que desconhece as limitações de fronteiras culturais, de ter a sensação de não pertencer totalmente a um lugar só. Caminhar por estas teias traz este estranhamento do não pertencimento. Porém a sensação é dúbia, pois ao mesmo tempo, ao sermos envoltos por estas peles e outros seres nos sentimos acolhidos.

A figura humana se faz bastante presente no trabalho de Sandra. A cadeira encostada no canto, esculturas feitas de papel e gaze que semelham uma segunda pele, invoca a presença de um corpo. Além destes que sugerem a passagem do corpo, encontramos esqueletos no chão e figuras moldadas em papel sentadas no parapeito da janela. As aquarelas penduradas na parede retratam pessoas que transitam entre o real e o imaginário. É frequente a sensação de estranhamento ao andar por seu ateliê. Os materiais parecem ter passado por um processo de destruição e reconstrução. São materiais precários porém são apresentados com leveza como se estivessem flutuando no espaço. Um ambiente que poderia ser um pouco assustador se torna protegido, como uma caverna. Sandra explica que estes skins representam a experiência de existir como corpo pensante. A artista esta constantemente investigando seu lugar no mundo, como habitar, como seu corpo, de forma subjetiva, pode existir em diversos lugares. Talvez por isso tenha criado sua própria caverna, seus próprios personagens, enchido seu mundo de formas criadas por ela.

Texto Priscilla Nasrallah
Fotos Fernanda Carvalho e Priscilla Nasrallah