Marco Maria Zanin _ artista visual em residência na Casa Fonte | Vila Madalena, SP

Ao chegarmos na casa onde funciona o atelier coletivo encontramos o artista italiano Marco Maria Zanin sentado em sua mesa em frente a janela grande da sala. Como se estivéssemos no interior, não foi preciso tocar a campainha. Nos cumprimentamos pela janela e ele veio abrir o portão. A casa localizada no meio da Vila Madalena é um atelier coletivo. Marco está fazendo sua segunda residência artística no Brasil.

Nossa visita aconteceu em sua última semana em São Paulo. Durante sua estadia Marco fez uma exposição individual na Oficina Cultural Oswald de Andrade. Lá apresentou suas duas séries mais recentes “Cattedrali Rurali” e ”São Paulo”. Nestas séries apresentou doze fotografias de grande formato. A série feita no interior da Itália, em uma região que fica entre Padova e Veneza, Marco fotografou em pleno inverno ruínas de construções antigas. As imagens destes monumentos envoltos em brumas dão a sensação que estamos em outro tempo. Como se fossemos transportados a um passado que já foi destruído, algo muito distante das fotografias dos arranha-céus do centro de São Paulo.

Em seu atelier encontramos sua nova pesquisa. Marco volta a falar do tempo e como esta questão permeia todo seu trabalho. Nos mostra suas diversas tentativas de se distanciar da fotografia clássica, suas experimentações com polaroids, com concreto e a investigação do grafite em São Paulo. Até que caminhando por feiras de antiguidade foi atraído pelos artigos que envocam a imigração italiana ao Brasil. Na mesa estão vários destes objetos que encontrou. Cartas de uma família inteira, álbuns, memórias, cartões postais. No chão esta uma pilha de fotografias viradas de cabeça para baixo. Explica que estão assim pois representam uma memória diluída, sem definição e por isso sem rosto. A partir das cartas encontradas de duas famílias especificas começou a construir estórias, como se fosse sua história da vinda ao Brasil.

Lemos com atenção uma carta enviada de um primo que ficou para trás enquanto outro veio ao Brasil. A carta foi enviada de um presídio na África do Sul durante a segunda guerra. A carta nunca chegou ao destinatário, assim como outras tantas. Ao ver tantos objetos que retratam memórias a sensação de tristeza predomina, a ideia de que memórias estão a venda causa bastante incomodo. Especialmente ao folhar os álbuns que Marco comprou e arrancou as fotos. A partir da destruição de outra memória ele cria sua história. O gesto de fincar as cartas na mesa é como se tentasse enraizar o tempo, estanca-lo. O trabalho faz uma conexão com sua primeira série de registros no interior da Itália, como se fosse uma tentativa de preservar a memória desses patrimônios arquitetônicos que estão desaparecendo, assim como as memórias compradas na feira.

O trabalho ainda esta sendo desenvolvido. Antecipa que regressará ao Brasil de navio, trilhando o trajeto feito pelos imigrantes italianos. Será bastante interessante ver o desenrrolar dessa pesquisa.

Texto _ Priscilla Nasrallah
Fotos _ Leka Mendes