Vicente de Mello _ artista visual | Glória, Rio de Janeiro

Chego ao prédio que abriga a casa e atelier de Vicente de Mello em um sábado a tarde. Um prédio antigo no bairro da Glória no Rio de Janeiro. Como uma boa paulistana cheguei atrasada por pensar que o Rio tudo é perto e em quinze minutos chegaria em qualquer lugar.

Vicente me recebe com sua voz suave e calma no apartamento bastante iluminado. Ali o artista se distribui em dois andares, um onde mora e um onde funciona o atelier e a casa de sua mãe. Na sala estão duas mesas, a primeira com pastas, arquivos e livros e a segunda com computadores. Paramos nos arquivos e Vicente me conta da trajetória de seu livro recém publicado pela editora Cosac Naify, Parallaxis. Me explica que sua intenção era fazer com que cada uma de suas séries fosse um livro por si só. Porém para que o livro pudesse ser consolidado e a ideia mantida, a forma gráfica muda ao mudar de série, assim fazendo com que o livro se torne diversos livros em um só.

Suas obras estão expostas pelo apartamento todo. Vicente explora os mais diversos temas. Desde o corpo humano a arquitetura. Apesar dos temas divergirem bastante, o que todos tem em comum são os recortes que o artista faz. Vicente explora através de sua máquina olhares inusitados, ângulos estranhos que tiram do tema sua importância. O olhar que Vicente instiga múltiplas leituras de um só trabalho, lugar ou objeto. O pescoço de sua mãe, ali com todas as dobraduras da pele assim como os ângulos dos monumentos arquitetônicos de Brasília tornam-se quase abstratos. A forma com que a luz recorta o objeto traz um tom surreal a temas já vistos antes.

Além de suas obras, retratos de família estão também pendurados na parede. Conta que seu pai era um assíduo fotógrafo amador e fazia álbuns atrás de álbuns de família. No fim de sua vida, o pai de Vicente começou a recortar as figuras das fotos, tirá-las do ambiente onde foram fotografadas, assim como seu filho faz hoje, o lugar não era importante. O que permaneceu foram os recortes.

A visita, como de praxe, incluiu uma paradinha para o café e um delicioso bolo. Ali conversamos sobre esse olhar científico de Vicente. Apesar de estar muito próximo aos seus temas e retratados, suas fotos me parecem frias, como uma investigação científica, que revela detalhes não antes vistos.

Os detalhes estão presentes em todos os cantos da casa. Durante nosso lanche reparo em uma boneca na janela. Uma figura feita de diversos materiais. Vicente coleciona esses bonecos feitos por um senhor chamado Getúlio, que esquizofrenicamente os produz. Não só coleciona estes bonecos como alguns outros bichos que estão próximos ao computador. Talvez Vicente seja um colecionador de imagens, independente do tema ou local. Traz consigo o que acha na rua da mesma forma com que fotografa. Percebe os detalhes que para muitos passa desapercebido.

Sempre fiel à fotografia, começou sua vida profissional estagiando na Funarte e no MAM Rio. No MAM era assistente de curadoria na parte do acervo de fotografia. Quando Paulo Herkenhoff saiu, Vicente se viu um pouco sem função. Assim, começou a fotografar todo o acervo do museu. Garantiu seu emprego. Seu olhar diferenciado fez com que Charles Cosac o convidasse para registrar e encontrar as obras de Maria Martins para seu livro. Seu olhar deu outra vida para o trabalho da artista, resgatando seu espirito surrealista.

Ao final de nossa longa conversa, Vicente me mostra uma foto encontrada por um professor seu enquanto ele ainda estava no colégio. Ali estão um grupo de garotos em frente a uma vitrine, um deles, com a câmera na mão era Vicente, já desde sempre fotografando.

Texto _ Priscilla Nasrallah
Fotos _ Priscilla Nasrallah