Daniel Murgel _ em residência na Phosphorus | Centro, SP

Em uma casa no coração do centro de São Paulo a Sé Galeria divide seu espaço com a residência artística Phosphorus. A recém aberta exposição Não Confie na Sorte, Pense de Daniel Murgel é fruto do seu trabalho enquanto trabalhava no ateliê da Phosphorus. Ironizando a atual crise hídrica que São Paulo enfrenta o artista construiu dois espelhos d’água na sala expositiva da galeria. Uma calha recolhe água da chuva assim enchendo os espelhos quando chover. Nossa visita aconteceu um pouco mais de uma semana antes da abertura da exposição. A sala expositiva mais parecia um espaço ainda em construção, com concreto ainda secando e tijolos para todos os lados. A maior parte da conversa aconteceu no atelier onde Daniel ficou nos últimos meses. Na parede do atelier, um andar abaixo da sala expositiva, estavam seus desenhos. Estes se assemelham a rascunhos de projetos, muito próximos de desenhos arquitetônicos. Em um dos desenhos conseguimos visualizar como ficarão os espelhos d’água e como funcionará o trabalho. Nos outros entramos um pouco no processo do artista. No papel estão marcas de seu sapato, frases aparentemente randômicas e resquícios de momentos que permaneceu no atelier.

O artista carioca já morou dois anos na cidade de São Paulo e esta não foi a primeira vez que ocupou o espaço na Rua Roberto Simonsen. Já havia estado ali produzindo antes da casa se tornar a galeria. Quando foi novamente convidado por Maria, sócia da galeria, a ideia de construir espelhos d’água já existia. O momento atual da cidade não poderia ser mais propício para o desenvolvimento do projeto. Daniel nos conta que seus últimos trabalhos já tinham um lado funcional, apesar de carregarem sugestões poéticas. O trabalho de Daniel vai além da arte pela arte. O artista desenvolve um sistema funcional dando à obra um significado que extrapola a forma.

No meio do atelier esta uma caixa d’água, dessas comuns de plástico em cor azul. Pergunto se ela fará parte da exposição, mas não. A água continuará sendo captada mesmo após a exposição. Procurei entender qual era a proximidade do artista com a arquitetura, pois além dos desenhos parecerem projetos, as obras são funcionais. Nos conta que sua formação é de pintura, porém seu pai e avó são arquitetos. Descreve seu trabalho como pintura expandida. Pois passa pelo mesmo processo de “arquitetar” seu projeto através de desenho. No começo de sua carreira Daniel quis ser chargista. Os desenhos na parede com caricaturas e frases fazem alusão a esta antiga vontade. Nos conta de seu interesse pelos cadernos de artista, que estes carregam um ar de espontaneidade maior e procurou imprimir isto em seus desenhos. Conseguimos perceber o ar despretensioso com bastante facilidade. O processo de criação está imprimido naqueles papéis de forma bastante fluída e honesta. A seguinte frase está escrita em um dos desenhos: “O desenho é um caminho para se chegar a uma construção, por sua vez é o caminho mais curto até a ruína.” O interesse pela ruína é uma das razões pela qual escolhe materiais de construção para desenvolver seus trabalhos.

No fundo da sala encontramos uma espada de São Jorge crescendo em um bloco de concreto. O bloco de concreto tem vários furos e um pequeno ralo. Daniel nos explica que dentro do bloco está um vaso de plástico e deste saem diversos drenos que acessam a terra. Dessa forma você joga a água pelo ralo e ela sai pelos drenos fazendo com que a planta sobreviva. A ideia deste trabalho surgiu em Belém. Certa vez estava debaixo de chuva e reparou em um canteiro todo concretado, ao lado desta árvore havia um ralo. Daniel achou isso genial, um trabalho de artista realmente, e daí replicou a façanha. No fundo da sala também está um mapa da cidade de São Paulo onde Daniel delimitou a área do centro com uma canetinha vermelha. Marcou toda sua área de atuação. Nos conta que fez isto em seu primeiro dia de trabalho. O artista leu bastante sobre a historia do centro e da cidade. A pesquisa teve grande influencia no trabalho, apesar de conseguirmos ver isso de forma sútil.

O trabalho estará exposto até dia 01/04 na galeria. Vamos torcer para que chova bastante para que o trabalho possa ser visto em sua plenitude e a cidade agradecer.

Texto \\ Priscilla Nasrallah
Fotos :: Leka Mendes