Vitor Mizael _ artista visual | Ipiranga, São Paulo

Em sua casa no bairro do Ipiranga, Vitor Mizael nos recebeu. Em uma sala de estar pintada em tons pastel. Vitor nos esperava com bolachas, bolo e café. Gastamos uma boa meia hora jogando conversa fora, falando de tudo um pouco. Só depois subimos para o quarto que usa de atelier. Vitor começa nos contando que tem o desenho como linguagem base, mas não se considera desenhista ou pintor. Seu foco de trabalho tem sido pensar em questões institucionais, em acervos e suas políticas. Nos mostra no computador o trabalho que expôs no Centro Cultural São Paulo, onde exibiu nove carros sucateados emprestados do pátio da prefeitura. Traçando um pararelo com o acervo da instituição. Os carros que estão no pátio da prefeitura em sua maioria são carros abandonados que muitas vezes seus proprietários não tem recursos para pagar as multas e taxas anexas à eles. Custa em média 19 mil reais para reaver o carro. A prefeitura também não pode se desfazer destes carros até que o dono diga que não o quer. E para a prefeitura o custo de transformar em sucata é mais caro que a venda da própria. Ou seja, um desperdício de dinheiro. A existência dos carros é semelhante ao acervo de instituições, que precisam de uma revisão, de um cuidado que tem um custo alto e requer tempo. Ambos estão fadados ao mesmo fim, muitas vezes se tornam sucatata. Acervo, principalmente de instuições públicas onde muitas coisas são doadas, tem muitas coisas consideradas de pouca importância histórica mas requer o mesmo cuidado de obras valiosas. Todos os trabalhos precisam de recursos para se manter. Citando o próprio artista, “tem de tudo, do luxo ao lixo.” Nos conta que em 2003-04 uma calha estourou no Centro Cultural e inundou o acervo, prejudicando uma coleção de obras postais da Bienal de 1983. As obras foram perdidas.

O trabalho de Vitor investiga de forma bastante inusitada a questão do arquivo. Seu trabalho parece ter a intenção de mostrar ao público o que geralmente está guardado. Nos mostra um projeto que usa animais empalhados. Pegou emprestado do museu de museologia da USP alguns animais que são patrimômino do museu e da universidade porém estão danificados e sem uso. Faltam orelhas, olhos, recheio que escapa, animais com buracos onde estava ninho de ratos, até animais em extinção que são importantes para um acervo de um museu deste porte. Porém o museu não pode expor estas peças e muito menos descartá-las pois são valiosos. O trabalho reflete a falta de pensamento da história da instituição, da falta de políticas de acervo, refletindo um problema bastante brasileira da falta de cuidado com sua memória.

Seu mais recente trabalho, exposto na última SP Arte e também em seu atelier, onde volumes retangulares de madeira são a plataforma para desenhos de passáros. Esses volumes são feitos do mesmo material de caixas de transporte de obras de arte. Uma análise do lado interno da instituição, O que é suporte começa a fazer parte do trabalho, invertendo os bastidores para o ambiente expositivo.

Foi uma visita que poderia ter levado a tarde toda. Os questionamentos de Vitor nos fazem refletir sobre a política do mercado e de como cuidados do nosso patrimônio.

Texto _ Priscilla Nasrallah
Fotos _ Leka Mendes