Mano Penalva _ ateliê coletivo _ SAO Espaço de arte | Vila Madalena, SP


O processo de Mano Penalva envolve seu interesse pela antropologia e formação cultural, que se materializa nessa urgência em se apropriar de artigos comuns encontrados e adquiridos na rua, mercados populares e em viagens para compor seus próprios trabalhos. Sendo assim, pode-se reconhecer uma quebra de fronteiras, e globalização de linguagem proposta pelos trabalhos, seja na apropriação de uma iconografia nacional familiar, ou na justapostaposição desta à outras iconografias de diversas partes do mundo, subvertendo muitas vezes os valores e significados originais e costurando discursos de cunho sociais filosóficos que são evidenciados pelas formas dos objetos criados.

“Gosto de pensar que meu trabalho é sobre as coisas do mundo, onde a improvisação, reutilização e reconfiguração estão em jogo. Me interesso na forma cotidiana da construção urbana ou rural, uso decorativo e prático do material, que de alguma forma refletem as realidades sócio-econômicas e culturais da população.”

O artista explora a poesia obtida pelo deslocamento dos objetos de seu contexto cotidiano, trabalhando com diferentes mídias como pintura, fotografia, escultura e instalação. Sua produção engloba apropriações, nas quais desenvolve um estudo do objeto comum inserido na cultura, realizando uma longa coleta de artigos encontrados na rua e em mercados populares. Ao criar os trabalhos, subverte o valor dos objetos do cotidiano, propondo novos agrupamentos estéticos a partir da relação das estratégias de venda do varejo e das suas experiências de coleta.

Seu trabalho traz reflexões sobre o caráter dos objetos, como eles transitam pelo mundo, as relações de troca e acordos comerciais entre países. Eles adquirem diferentes camadas de significados quando utilizados por diferentes culturas, impactando na formação dos costumes de uma sociedade. Mano realça com seus trabalhos a ideia que a exponencial proliferação de objetos e imagens não se destinam a treinar a percepção ou a consciência, mas insistem em fundir-nos com eles.

“Há alguns anos, Mano vem se dedicando a pesquisar a formação da cultura brasileira e as maneiras pelas quais ela se manifesta em diferentes contextos. O comércio popular, a rua e a casa vem sendo seus grandes interesses de estudo. O principal procedimento em seu trabalho é a união gambiarresca, precisa e incomum de fragmentos e objetos muitas vezes reutilizados. Os resultados, usualmente de grande impacto visual, nos fazem ter a sensação de estar diante de algo que nos era doméstico e que, de alguma forma misteriosa, tomou vida. E agora, quando olhamos para eles nos ostentando suas próprias mutações, somos agraciados com sintomas da plasticidade da cultura.” Bernardo Mosqueira

“Penso que no trabalho de Mano Penalva essa qualidade de pele e movimento se atenuam. O corpo do artista parece o tempo inteiro negociar com os corpos-palafita por onde passa. Há nesse empenho um constante exercício em expor-se a essas forças do fora. Nesse caso, muito pouco interessa uma perspectiva etnográfica da caminhada, muito menos o troar afoito de um bandeirante que edificaria apenas linguagens, formas e representações. Nesse aspecto me parece oportuno problematizar um tipo exercício conquistado pelo árduo labor em driblar os ditames de um cotidiano centrado do “eu” para catapultar-se a novas dimensões do próprio corpo. Um corpo plasmado com a paisagem. Que enxerga-se como parte integrante de meio e permite-se ao admirável cruzamento que só a improbabilidade dos acontecimentos é capaz de oferecer. Há nesse modo de caminhada apenas uma obrigação: a de entender a vida, ou a arte, como o próprio gesto escultórico do fazer.” Tarcisio Almeida